quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os intocáveis

O processo Face Oculta deu-me, finalmente, resposta à pergunta que fiz ao ministro da Presidência Pedro Silva Pereira - se no sector do Estado que lhe estava confiado havia ambiente para trocas de favores por dinheiro. Pedro Silva Pereira respondeu-me na altura que a minha pergunta era insultuosa.


Agora, o despacho judicial que descreve a rede de corrupção que abrange o mundo da sucata, executivos da alta finança e agentes do Estado, responde-me ao que Silva Pereira fugiu: Que sim. Havia esse ambiente. E diz mais. Diz que continua a haver. A brilhante investigação do Ministério Público e da Polícia Judiciária de Aveiro revela um universo de roubalheira demasiado gritante para ser encoberto por segredos de justiça.

O país tem de saber de tudo porque por cada sucateiro que dá um Mercedes topo de gama a um agente do Estado há 50 famílias desempregadas. É dinheiro público que paga concursos viciados, subornos e sinecuras. Com a lentidão da Justiça e a panóplia de artifícios dilatórios à disposição dos advogados, os silêncios dão aos criminosos tempo. Tempo para que os delitos caiam no esquecimento e a prática de crimes na habituação. Foi para isso que o primeiro-ministro contribuiu quando, questionado sobre a Face Oculta, respondeu: "O Senhor jornalista devia saber que eu não comento processos judiciais em curso (…)". O "Senhor jornalista" provavelmente já sabia, mas se calhar julgava que Sócrates tinha mudado neste mandato. Armando Vara é seu camarada de partido, seu amigo, foi seu colega de governo e seu companheiro de carteira nessa escola de saber que era a Universidade Independente. Licenciaram-se os dois nas ciências lá disponíveis quase na mesma altura. Mas sobretudo, Vara geria (de facto ainda gere) milhões em dinheiros públicos. Por esses, Sócrates tem de responder. Tal como tem de responder pelos valores do património nacional que lhe foram e ainda estão confiados e que à força de milhões de libras esterlinas podem ter sido lesados no Freeport.

Face ao que (felizmente) já se sabe sobre as redes de corrupção em Portugal, um chefe de Governo não se pode refugiar no "no comment" a que a Justiça supostamente o obriga, porque a Justiça não o obriga a nada disso. Pelo contrário. Exige-lhe que fale. Que diga que estas práticas não podem ser toleradas e que dê conta do que está a fazer para lhes pôr um fim. Declarações idênticas de não-comentário têm sido produzidas pelo presidente Cavaco Silva sobre o Freeport, sobre Lopes da Mota, sobre o BPN, sobre a SLN, sobre Dias Loureiro, sobre Oliveira Costa e tudo o mais que tem lançado dúvidas sobre a lisura da nossa vida pública. Estes silêncios que variam entre o ameaçador, o irónico e o cínico, estão a dar ao país uma mensagem clara: os agentes do Estado protegem-se uns aos outros com silêncios cúmplices sempre que um deles é apanhado com as calças na mão (ou sem elas) violando crianças da Casa Pia, roubando carris para vender na sucata, viabilizando centros comerciais em cima de reservas naturais, comprando habilitações para preencher os vazios humanísticos que a aculturação deixou em aberto ou aceitando acções não cotadas de uma qualquer obscuridade empresarial que rendem 147,5% ao ano. Lida cá fora a mensagem traduz-se na simplicidade brutal do mais interiorizado conceito em Portugal: nos grandes ninguém toca.

Black Eyed Peas - Meet Me Halfway (official video)

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

http://revistaantigaportuguesa.blogspot.com/2008_07_13_archive.html

Caravela seiscentista jaz no estuário do Cávado

Associação reivindica pela valorização do achado, descoberto há duas décadas


LUÍS HENRIQUE OLIVEIRA

No estuário do Cávado, mesmo em frente a Esposende, jaz o que resta de uma caravela do tempo dos Descobrimentos. Carbono 14 datou-a de 1548. Parte do navio foi encontrado em dragagens, realizadas há já duas décadas.
Uma caravela de 13 metros de comprimento e com capacidade para transportar até 40 toneladas de carga naufragou no estuário do Cávado em meados do século XVI. Transportaria uma elevada quantidade de cerâmica, ao que tudo indica proveniente de Barcelos. Os motivos do naufrágio são, ainda, desconhecidos da comunidade científica.
Há duas décadas, uma dragagem no estuário poria a descoberto um conjunto de madeiras e de peças de cerâmica - muitas delas inteiras. Porém, as peças trazidas à superfície não despertariam, então, a curiosidade do achador, que julgou tratar-se do local de naufrágio de barco que comercializasse na feira de Barcelos. Só uma década depois é que os achados seriam comunicados à Capitania e ao então Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS). Porém, a proximidade a que os vestígios se encontravam da superfície (apesar de cobertos por metros de sedimentos) motivaria alguma reserva da informação, "para que se salvaguardasse o achado", revela João Baptista, presidente da associação Barcos do Norte, entidade que há muito acompanha o processo.
Segundo o responsável, o CNANS promoveria, em 2000 e 2002, duas campanhas no local. Contudo, não viria a ser possível a localização exacta do sítio do naufrágio. As missões incidiriam na zona do Varadouro, a juzante da ponte de Fão, local do estuário do Cávado onde, noutros tempos, as embarcações fundeavam e onde se crê que a caravela tenha naufragado. Um fragmento dos madeiramentos trazidos à superfície e pertencentes à parte da ré do navio (o cadaste, ver foto) viria a ser datado, através de carbono 14, do ano de 1548, testes estes realizados em universidade dos Estados Unidos. Quanto às cerâmicas ali descobertas, João Baptista assinala que, dadas as suas formas e características, seriam provenientes de Barcelos, asseverando, a propósito, que "são em tudo semelhantes a peças descobertas em Aveiro, no local onde foi encontrado o astrolábio em ouro".
Defendendo a valorização e musealização do achado arqueológico, considerou que um estudo aprofundado permitiria "reescrever" uma parte da história: "Trata-se de reavivar uma importante parte da nossa herança e, no nosso entender, não há dinheiro que pague isso", vaticinou.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

«Nova Águia» edita CD com palestra de Teixeira de Pascoaes

O quarto número da revista «Nova Águia», que inclui um CD com a voz de Teixeira de Pascoaes, é apresentado no próximo sábado na Biblioteca Municipal de Sesimbra. A revista, segundo Renato Epifânio, um dos seus directores, “assume o legado do movimento cultural da Renascença Portuguesa”.



O quarto número evoca os 20 anos da queda do Muro de Berlim e “procura reflectir sobre três vértices: Pascoaes; Portugal e a Europa”.
Adriano Moreira, Miguel Real, Pinharanda Gomes e Manuel Ferreira Patrício são alguns dos colaboradores deste número que inclui um CD com uma palestra de Teixeira Pascoaes gravada em 1952, no Porto.
“A gravação estava na posse da família e permite-nos hoje ouvir a voz mítica e lendária de Pascoaes. O filósofo José Marinho, quando a ouviu, afirmou que teve medo. É de facto uma voz cava, forte e profunda”, disse Renato Epifânio.
Na palestra, o autor de «A Arte de Ser Português» disserta sobre a “alma ibérica”. “Trata-se de um texto que seria o prólogo de uma obra a publicar intitulada «Epistolário ibérico - Cartas de Pascoaes a Unamuno», e que foi já publicado na revista Colóquio de Letras”, explicou o responsável.
O CD é inédito e, segundo Renato Epifânico, a revista não conta em próximos números voltar a editar qualquer CD. A «Nova Águia», com uma tiragem de 2000 exemplares, será apresentada sábado em Sesimbra, tendo ainda previstas apresentações na Quinta da Regaleira, em Sintra, a 7 de Novembro e dia 11 de Novembro às 15h00 no Colégio Militar, em Lisboa, e às 17h00, nos Paços do Concelho da capital.
Teixeira de Pascoaes é o pseudónimo literário de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos. Nascido em Amarante, em 1877, o escritor que se distinguiu como uma das principais vozes do movimento literário-filosófico Saudosismo, faleceu em 1952.
Entre as suas obras em poesia destacam-se os títulos «Marânus», «O Doido e a Morte» ou «Versos Pobres», enquanto em prosa escreveu as biografias romanceadas de S. Paulo, S. Jerónimo, Santo Antão e Camilo Castelo Branco, e para teatro publicou «Jesus Cristo em Lisboa», em colaboração com Raul Brandão. Colaborou também com Afonso Lopes Vieira no livro de poesia «Profecia».

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Quadro do deus romano está em exposição em Florença

Caravaggio pintou o seu auto-retrato no interior do jarro de vinho visível à direita de Baco, no famoso quadro do pintor do deus romano existente na Galeria dos Ofícios, em Florença, segundo peritos italianos citados hoje pela imprensa.

A descoberta foi feita por restauradores e investigadores, através de uma sofisticada análise com recurso a instrumentos da mais avançada tecnologia.

Os resultados da investigação serão hoje comunicados oficialmente ao Comité Nacional para as Celebrações do quarto centenário da morte do pintor, em 1610.
No interior do jarro, Caravaggio pintou a silhueta de um homem, de pé, com um braço estendido. Alguns traços do vulto são claramente distinguíveis, em particular o nariz e os olhos, sendo também perceptível um colarinho.
Os especialistas crêem poder hoje dizer-se que o pintor (1573-1610) fez o seu auto-retrato reflectido num jarro que tinha à sua frente enquanto estava a pintar.
Segundo o jornal italiano "La Stampa", há já algum tempo que se dizia que o vulto de Michelangiolo Merisi da Caravaggio deveria estar oculto num ponto qualquer do quadro, mas ninguém até hoje pudera demonstrá-lo.




Baco, um quadro a óleo de 95 por 85 centímetros, foi pintado por Caravaggio em 1596 e 1597 por encomenda do cardeal Del Monte para o oferecer a Fernando I de Medici, por ocasião do casamento do filho Cosimo II.

Temporada de Cravo começa sábado em Óbidos e homenageia Händel

Santuário do Senhor da Pedra é o cenário para os quatro concertos que constituem a Temporada de Cravo de Óbidos que começa sábado e termina a 21 de Novembro

A Temporada de Cravo que se realiza desde 2003, acontecerá pela primeira vez num único espaço da vila estremenha, precisamente onde em 1747 nasceu um dos mais importantes compositores portugueses de música sacra, designadamente para cravo, José Joaquim dos Santos.

«A aposta, este ano, é aumentar o número de espectadores, daí termos optado por um espaço maior», disse à Lusa José Parreira, da organização.
A edição deste ano é dedicada aos 250 anos da morte do compositor barroco alemão George Friedrich Händel (1685-1789).
Logo no concerto inaugural, sábado, às 21h30, João Paulo Janeiro apresenta um programa intitulado Música de Tecla de Händel e as suas influências, interpretando peças do compositor germânico, de Scarlatti, Couperin, Bach e Purcell. José Parreira afirmou que «Óbidos tem dedicado especial atenção ao Cravo, nomeadamente pelo facto de aqui ter nascido José Joaquim dos Santos, e além desta temporada tem apostado na investigação da sua obra, a edição de partituras e de CD com peças suas, mas também em dar apoio a novos cravistas».
O município adquiriu em 2000 um cravo, cópia de um Goemans-Taskin do género franco-flamengo 1764-1783, fabricado pelo italiano Guido Bizzi, que «músicos jovens podem tocar gratuitamente».
Sempre no Santuário do Senhor da Pedra, o segundo concerto da Temporada, com objectivos pedagógicos, acontece dia 7 de Novembro, também às 21h30.

O músico José Carlos Rodrigues interpretará suites para Cravo de Händel, e Jorge Rodrigues fará os comentários.
Tanto o cravista como o comentador estarão trajados com fatos da época de Händel (século XVIII).
No sábado seguinte, Ana Mafalda Castro (cravo) e Bruno Monteiro (violino) interpretam músicas de Händel, Bach e Carlos Seixas.
A Temporada encerra dia 21 com o ensemble La Main Gauche constituído por baixo contínuo, flauta de bisel, violoncelo barroco e contra tenor, que interpretarão peças de Häendel e Bach.
Lusa / SOL